No dia 4 de agosto de 2019, encontrava-me no Parque Nacional de Durmitor, no norte do Montenegro. Dessa viagem ficaram muitas fotografias, mas a memória é seletiva: recordo sobretudo o Crno Jezero e a sensação absolutamente singular do ar. Passaram vários anos até sentir vontade de voltar a essas imagens, com o olhar de viajante e também de geógrafo, para tentar perceber por que razão uma área relativamente pequena dos Balcãs deixa uma impressão tão forte.
Estudar geografia tem um efeito secundário curioso: uma paisagem bonita depressa deixa de ser apenas bonita. Por detrás do contorno das montanhas, começamos a procurar a origem das rochas; na forma de um vale, reconhecemos o trabalho de um antigo glaciar; junto a um lago, interrogamo-nos sobre a sua bacia e o escoamento subterrâneo. Durmitor é quase ideal para esse olhar. Num espaço reduzido encontram-se a história tectónica dos Dinárides, os depósitos marinhos mesozoicos, o carso, as glaciações do Plistocénico, as atuais florestas de montanha e uma paisagem humanizada cuja existência, a esta escala, é muito recente.
Žabljak: um destino turístico entre planaltos elevados
Para a maioria dos viajantes, a descoberta de Durmitor começa em Žabljak. Esta pequena cidade situa-se a cerca de 1450 metros de altitude e é hoje o principal centro turístico desta parte do Montenegro. Mas a sua história como estância de férias começou muito antes dos atuais hotéis de montanha. Já antes da Segunda Guerra Mundial chegavam visitantes do Reino da Jugoslávia e de outros países europeus. Depois da guerra, Žabljak foi reconstruída e desenvolveu-se progressivamente como centro de turismo de montanha e de inverno [1].
A história do esqui em Durmitor também é bastante anterior à infraestrutura turística moderna. Os primeiros grupos organizados de esquiadores surgiram em Žabljak ainda na década de 1920. Na segunda metade do século XX já aqui se realizavam competições de nível jugoslavo e se consolidavam instalações desportivas permanentes [2]. A tradição mantém-se: nas encostas de Savin Kuk funciona uma estância de esqui com pistas de diferentes dificuldades [3]. Assim, o mesmo relevo é sentido no verão como um espaço de prados verdes de altitude, florestas de coníferas e calcário exposto, transformando-se no inverno numa paisagem de esqui.
A mim, porém, depressa me interessaram outros aspetos além da história turística. Na universidade, quem nos ensinava paleogeografia era Nikolai Grigorievitch Tsiberkin, docente do Departamento de Geografia Física e Ecologia da Paisagem da Universidade Estatal de Perm [4]. Aqui recordo as suas aulas sob uma perspetiva inteiramente diferente: os mapas e as reconstruções do passado tornam-se uma forma de ler a paisagem atual através da sucessão dos processos que a moldaram.
A paleogeografia habitua-nos a encarar a superfície da Terra como algo em transformação. A terra firme de hoje pode ter sido um fundo marinho; um vale atual pode ter mudado várias vezes de origem e de função; a vegetação ocupou um relevo já formado, cuja história começou muito antes dos ecossistemas presentes. A paleogeografia russa tem uma longa tradição. Uma das suas obras universitárias clássicas é o livro do académico K. K. Markov «Paleogeografia (geografia histórica da Terra)», publicado em 1951 [5]. Muitos anos depois dos estudos universitários, Durmitor revelou-se, inesperadamente, quase uma ilustração desta disciplina no terreno.
Montanhas que começaram no mar
Durmitor pertence ao sistema dos Dinárides, ou Alpes Dináricos, que se estende pela parte ocidental da península balcânica. A estrutura geológica da região é complexa, mas o maciço contém extensas e espessas séries de rochas carbonatadas de idade mesozoica. A UNESCO destaca as formações calcárias do Triásico médio e superior, do Jurássico superior e do Cretácico superior e considera as características geológicas e geomorfológicas um valor próprio do parque nacional [6].
Traduzidos para a linguagem da paisagem, os termos geológicos compõem um quadro impressionante. Os materiais de uma parte considerável das montanhas atuais acumularam-se em bacias marinhas. Os estudos modernos sobre os Dinárides relacionam o seu desenvolvimento com a margem oriental da microplaca adriática e com a longa evolução das bacias oceânicas do Neotétis. Em diferentes fases ocorreram aqui rifteamento e abertura de bacias marinhas, subducção, formação de complexos ofiolíticos, acumulação de sedimentos profundos e posterior colisão continental [7].
As paredes de calcário cinzento acima da floresta de coníferas são, por isso, o resultado de vários contextos geológicos fundamentalmente diferentes. Os sedimentos marinhos transformaram-se em rochas; depois, essas séries foram envolvidas em deformações tectónicas: dobraram-se, deslocaram-se ao longo de cavalgamentos e elevaram-se, enquanto a erosão voltava a expô-las à superfície.
A UNESCO chama particularmente a atenção para os complexos intensamente deformados de Durmitor, incluindo o chamado flysch de Durmitor, cujas camadas apresentam, nalguns locais, uma inclinação extremamente acentuada, quase vertical [6]. O flysch é constituído por espessas sucessões de rochas sedimentares marinhas, enquanto a disposição atual das camadas reflete uma história tectónica posterior. Neste sentido, a paisagem de Durmitor pode realmente ser lida como um corte geológico: diante dos olhos surge um maciço inteiro, em vez de apenas alguns metros de afloramento.
Quando o carso encontrou o glaciar
Depois da formação das montanhas, a água continuou a modificar o seu relevo. As rochas carbonatadas são suscetíveis aos processos cársicos: a água infiltra-se pelas fraturas, dissolve gradualmente o calcário, alarga cavidades e forma sumidouros, dolinas e condutas subterrâneas. Quando chegaram as grandes glaciações do Plistocénico, Durmitor já apresentava, portanto, um relevo complexo, moldado pela tectónica, pela erosão fluvial e pelo carso.
Depois chegou o gelo. A reconstrução das glaciações plistocénicas de Durmitor realizada pelo geógrafo sérvio Predrag Đurović mostra a dimensão do processo. Durante a fase glaciar mais intensa identificada, as formas glaciares ocupavam mais de 54 % da superfície do maciço; na grande fase seguinte, cerca de 36 % [8]. O movimento do gelo e a posição das línguas glaciares eram fortemente condicionados pela estrutura geológica e pelas formas cársicas e fluviais preexistentes.
Esta é uma característica importante de Durmitor. O glaciar remodelava uma superfície que já tinha a sua própria longa história. Ocupava depressões, alargava-as, aprofundava vales e circos, alterava os contornos das encostas e, após recuar, deixava um conjunto de formas sobre as quais continuavam a atuar a água, a gelifração e os processos cársicos. Os documentos do Parque Nacional de Durmitor salientam precisamente a combinação de formas glaciares bem conservadas com um relevo cársico pré-glaciar desenvolvido [9].
O resultado é uma paisagem poligenética, em que a origem de muitas formas está ligada à ação sucessiva ou simultânea de vários processos, glaciares e cársicos. Num manual é cómodo estudá-los separadamente. Nas montanhas reais, a natureza, como habitualmente, pouco se preocupa com o rigor das classificações.
Crno Jezero: duas bacias e uma história
O Crno Jezero situa-se no sopé do maciço de Međed e é o maior e mais conhecido dos lagos glaciares de Durmitor. O maciço conta, no total, com 18 lagos deste tipo, poeticamente designados no Montenegro por gorske oči, «olhos da montanha» [10].
Mas a própria estrutura do Crno Jezero é mais interessante do que parece à primeira vista. É formado por duas bacias: o Lago Grande, Veliko jezero, e o Lago Pequeno, Malo jezero, ligadas por uma estreita passagem de água. Segundo os dados oficiais montenegrinos, o Lago Grande tem uma superfície de cerca de 0,338 km² e o Pequeno de aproximadamente 0,178 km². Contudo, a profundidade máxima do Grande atinge 24,5 m, enquanto a do Pequeno chega aos 49,1 m [11].
Daqui resulta um curioso paradoxo morfométrico: o Lago Pequeno tem quase metade da superfície, mas cerca do dobro da profundidade. Além disso, o seu volume de água é até ligeiramente superior: cerca de 4,55 milhões de m³, contra aproximadamente 4,15 milhões de m³ no Lago Grande [11]. Os nomes refletem a superfície da água, mas nada dizem sobre a geometria da bacia abaixo do nível da água.
O nível da água varia sensivelmente ao longo do ano. Na primavera, o lago recebe um aporte adicional do degelo e de cursos de água temporários; no verão, o nível desce, ficam expostos troços da margem e a ligação entre as duas bacias torna-se muito mais estreita, podendo interromper-se em determinados períodos [11]. Nas minhas fotografias do início de agosto vê-se claramente uma faixa larga de margem descoberta. Seria demasiado arriscado determinar o estado hidrológico exato do lago naquele dia com base numa única imagem, mas as alterações sazonais do seu contorno são visíveis mesmo sem observações específicas.
A origem glaciar da bacia explica apenas parte da forma do lago. O Crno Jezero atual encontra-se dentro de um maciço cársico; por isso, o seu balanço hídrico depende da precipitação, do escoamento superficial e da evaporação, mas também de um complexo sistema de drenagem subterrânea.
Uma hidrografia que continua debaixo da terra
Uma rede fluvial comum é relativamente fácil de ler num mapa topográfico. A água desce as encostas, reúne-se nos vales, e as zonas elevadas formam linhas de separação entre bacias. No relevo cársico, esta lógica deixa de ser suficiente: os limites das bacias superficiais e subterrâneas podem não coincidir; a água desaparece num sumidouro, percorre uma rede de fraturas e condutas cársicas e volta a surgir à superfície noutro lugar.
É por isso que o Crno Jezero também interessa como elemento de um grande sistema hidrogeológico. Os Parques Nacionais do Montenegro assinalam a sua ligação ao escoamento para as bacias de dois grandes sistemas fluviais, o Tara e o Piva, designando este fenómeno como bifurcação [10]. Trata-se de uma combinação complexa de drenagem superficial e subterrânea do maciço calcário, que vai além de uma simples divisão de um leito à superfície.
Nas regiões cársicas, este comportamento da água é fundamental: a forma da superfície, por si só, não dá uma resposta completa sobre a direção do escoamento. As bacias subterrâneas podem atravessar as linhas de separação das bacias superficiais, e as zonas de recarga e descarga podem estar muito afastadas. A UNESCO destaca em Durmitor o desenvolvimento de grutas, rios subterrâneos e drenagem cársica de parte dos lagos glaciares [6].
Visto da margem, o Crno Jezero parece tranquilo: água, floresta e rochas. No entanto, uma parte considerável da sua hidrologia está escondida dentro da montanha. Esta é uma característica do carso: muitas vezes, a parte mais interessante da geografia encontra-se onde não a podemos ver diretamente.
Durmitor em altitude: quando se revela a estrutura rochosa
À medida que se sobe a partir de Žabljak e do Crno Jezero, a paisagem muda gradualmente. As florestas de coníferas tornam-se menos densas, dão lugar a prados subalpinos e alpinos e, mais acima, aflora cada vez mais claramente a base rochosa do maciço. Em alta montanha distinguem-se particularmente bem as encostas calcárias íngremes, a dissecação cársica e as formas associadas às antigas glaciações.
É aqui que melhor se compreende por que razão Durmitor integra a Lista do Património Mundial da UNESCO tanto pela sua beleza natural excecional como pelo seu valor geológico e geomorfológico. Numa superfície relativamente pequena convivem formas glaciares e cársicas; desfiladeiros fluviais profundos expõem a estrutura do maciço; e o desenho geral do relevo é determinado pela complexa história tectónica dos Dinárides [6].
A alta montanha mostra também outra realidade familiar a um geógrafo: qualquer paisagem atual é simultaneamente natural e cultural. Entre formas criadas ao longo de dezenas de milhões de anos passam estradas e percursos turísticos, funcionam pistas de esqui no inverno e utilizam-se pastagens no verão.
Nas fotografias antigas, esta combinação é particularmente evidente. O maciço rochoso e as formas glaciares estabelecem uma escala temporal imensa, enquanto, mesmo à sua frente, decorre uma vida contemporânea perfeitamente comum. Recorda-se aqui um dos princípios fundamentais do olhar paleogeográfico: a paisagem atual não pode ser considerada um estado final. É apenas um corte temporal no longo desenvolvimento do invólucro geográfico da Terra.
A floresta em redor do Lago Negro
Junto ao Crno Jezero, a paisagem geológica encontra-se quase diretamente com a florestal. A vegetação escura das coníferas forma uma moldura densa à volta da água e, nalguns pontos, reflete-se no lago com tal intensidade que a origem do seu nome se torna mais clara. Consoante a luz, a superfície pode parecer azul, verde ou quase negra, embora a água permaneça bastante límpida.
A floresta influencia mais do que a perceção visual. As coníferas libertam para a atmosfera compostos orgânicos voláteis biogénicos. Nestes bosques estão amplamente representados os monoterpenos, incluindo α-pineno, β-pineno, limoneno e outros compostos, cuja concentração depende das espécies vegetais, da temperatura, da luz, da estação do ano e da hora do dia [12]. São precisamente estas substâncias que contribuem para o cheiro característico das agulhas, da resina e da floresta aquecida pelo sol.
A isto soma-se a altitude de Durmitor. Žabljak situa-se a cerca de 1450 m acima do nível do mar, o Crno Jezero apenas um pouco mais abaixo, e o clima da parte elevada do maciço é sensivelmente mais fresco do que o do litoral montenegrino [1][10]. Mesmo em agosto, as condições de temperatura e humidade são muito diferentes das do Adriático. A floresta, as superfícies de água livre, o relevo de alta montanha e uma pressão humana muito menor criam um ambiente inteiramente distinto, difícil de transmitir numa única fotografia.
Talvez seja por isso que, anos depois, volto precisamente àquela viagem. Nas velhas imagens posso agora examinar as bacias mesozoicas, a tectónica dos Dinárides, o carso, os glaciares plistocénicos, a origem da bacia lacustre e a hidrografia subterrânea. Algures nestas reflexões regressam as aulas universitárias de Nikolai Grigorievitch Tsiberkin e as reconstruções paleogeográficas que, na altura, existiam para nós sobretudo em mapas e nas páginas dos manuais.
Aqui, tudo ficou reunido numa paisagem real. Para que eu pudesse estar na margem do Crno Jezero a 4 de agosto de 2019, muito antes tiveram de existir aqui mares antigos. Os sedimentos marinhos transformaram-se em rochas; os processos tectónicos elevaram-nas e deformaram-nas; a água começou a criar um relevo cársico; os glaciares ocuparam repetidamente os vales e as bacias de montanha; depois do seu recuo, a água voltou a ser um dos principais agentes de transformação da superfície.
A história tornou-se muito longa; a memória ficou surpreendentemente simples.
Em Durmitor respira-se bem.
